9 de agosto de 2009

FNM


Vamos esquecer a idade e a calça plissada a condizer, vamos esquecer as contas de cabeça... 16 anos é muito tempo. Os Faith No More estão iguais, a mesma música, a mesma energia, o mesmo gozo. Um concerto que valeu por um festival inteiro.

8 de agosto de 2009

a praia

"um homem todo nu, sentado a ler um livro é do caraças." a frase é da M. vamos as duas no carro, abandonadas que fomos pelos homens do grupo, numa estrada estreita e sem luz, a caminho do Sudoeste. o homem nu estava sentado muito direito, costas apoiadas no pau da bandeira vermelha, na praia que nos acolheu durante a tarde. a praia, onde se chega por uma descida ingreme e que descobrimos por acaso, por ser a mais próxima do lugar de estacionamento que miraculosamente encontramos, é linda, pequena e sem pudor. nenhum de nós estava a espera desta parte, mas já que assim era, ao menos que os corpos fossem bonitos, que servissem para limpar a vista, qualquer coisa. ao invés eram corpos flácidos, mal tratados pelo tempo, com vida, mas sem graça. ficamos até o sol ameaçar esconder-se atrás do mar, tomamos banho na água gelada, dormimos, acordamos as duas perto da hipotermia, enquanto os homens, os que estavam connosco, pontapeavam uma bola sem piedade.

zero7

Sejamos honestos. Se alguma vez me tivessem dito que um dia estaria às 3h30 num festival, no meio do Alentejo, a ouvir música electrónica e a gostar muito, eu teria duvidado seriamente da sanidade mental do meu interlocutor.

6 de agosto de 2009

lei de murphy

Devia ter acendido a vela, era tão simples, há tanta igreja à minha volta e isqueiros não me faltam, ainda por cima agora nem era preciso, já não há velas nas igrejas, há luzes eléctricas encaixadas em copos de plástico vermelhos. Uma moeda é quanto custa fazer um pedido, procurar um milagre, meter uma cunha. Devia ter ido a uma igreja, há tantas por aqui e são tão frescas no Verão, devia ter pousado os joelhos na pedra fria, entestado as mãos junto ao peito, e evocado qualquer santa trindade. No lugar disso, estou a esta hora numa estação de serviço, a meio caminho do destino, e os National a tocar na Zambujeira. É certo e sabido que se há quem cumpra escrupulosamente a lei de Murphy sou eu. Não havia razão para hoje ser diferente. Devia ter acendido uma vela.

Tango

Não sei se o sino da igreja ali ao lado já tinha tocado para assinalar a passagem do dia, estava de olhos colados nos corpos que se mexiam à minha frente, os ouvidos na música e o cérebro longe dali. Os olhos seguiam uma mulher esguia, pernas muito longas quase completamente tapadas por uma saia ligeiramente abaixo do joelho, cabelo comprido sobre os ombros, a lembrar as divas do pós-guerra, os pés ligeiros, nuns sapatos de salto não muito alto. São sempre tão elegantes os sapatos das mulheres que dançam o tango. Movia-se como se nada mais existisse, apenas ela e o seu par, como se os pés não tocassem o chão, como se o mundo tivesse parado naquele instante, com uma sensualidade quase palpável. Era um grupo pequeno, uma dezena de pares, que rodopiavam, trocavam os pés em movimentos rápidos, para num segundo voltar ao ponto de partida, elas lançando ligeiramente uma perna para trás, num quase imperceptível acto de sedução, para pouco depois a erguer no mesmo sentido de forma mais brusca, naquilo que sempre me pareceu, no tango, uma afirmação da posição da mulher sobre o homem. Não sei do que falo, sou pé de chumbo, e da história do tango conheço nada, mas este movimento, ou aquele outro em que a mulher cruza uma perna levantada sobre a outra e a coloca entre si e o homem, são hipnotizadores. Talvez fosse do vinho do jantar, da conversa que se prolongou e do mimo que recebi, mas aquela praça, com o céu tapado pelas árvores e ao som do tango, tinha hoje concentrada a magia de uma cidade inteira e de muitas histórias de amor.

4 de agosto de 2009

Agora para coisas realmente importantes

Já sei que não me vale a pena planear a vida ao milímetro. Nada corre nunca como quero. Mas desta vez, eu agnóstica confessa, estou disposta a acender uma vela a um qualquer santo que me garanta uma folga na sexta-feira e a saída a horas de chegar a sul na quinta. Em palco esperam-me os The National, os gajos que justificam que me arraste para um festival, que me prepare mentalmente para comer terra durante vários dias, que me disponha a enfrentar milhares de pessoas, todas no mesmo espaço, que por muito grande que seja me parecerá sempre claustrofóbico. Não sou pessoa de festivais. Sou demasiada comodista para isso. Odeio multidões. Dêem-me um lugar ali no Atlântico, a poucos metros do mestre Cohen, com o carro deixado praticamente à porta para sair estrategicamente a tempo de [quase] evitar o mar de gente. O mesmo concerto em que me gabavam a sorte de ver ao vivo e a cores, poucos meses depois de descobertos, dois dos meus maiores ídolos da actualidade. A esses juntam-se, se Deus ou alguém quiser com muita força, os The National e os Zero7. Sim, sou mulher de descobertas tardias, mas aproveitadas ao máximo. E depois há ainda Faith No More. Voltar a ter 18 anos. Só que desta vez não venho directa de uma frequência de Matemática num final de tarde de quarta-feira. Se tudo correr bem virei directamente da praia, a pele a saber a sol e a mar, um sorriso do tamanho do mundo, num daqueles dias cheios como só podem ser os dias de Verão.

dores de crescimento

Um dia explicaram-me que a raiva que sentia, naquele dia específico, e as lágrimas que me caiam pelo rosto numa dor imensa, por perceber que não há actos inconsequentes e que me tornara responsável, tinham um nome. Chamaram-lhe crescer. Lembrei-me desta conversa hoje quando, já noite, cheguei à rua e vi uma lua imensa, redonda, plena, sobre o céu da cidade. Se tivesse ligado ao L., se hoje lhe pedisse um ombro, ele ter-me-ia explicado que a culpa, se ela existisse, para o peso que trazia no peito, é da lua. Nunca somos responsáveis pelo que fazemos nas noites de lua cheia. Não liguei porque a resposta estava na tal conversa. O peso no peito é proporcional à certeza de que algo tem que mudar para que tudo fique na mesma. Quantas vezes tive já esta mesma certeza? Que hoje, como naquele dia, continuam a não existir actos sem consequências e que cada gesto que faço terá amanhã um peso desmesurado. E as mesmas certezas voltam a pesar e volto a ter dores de crescimento como a D. lhe chamou naquele dia. Abro a janela, acendo um cigarro, aumento o volume do rádio e decido que não quero crescer mais este ano.

3 de agosto de 2009

ementa para um almoço de segunda-feira

Vivaldi e Henry Miller. Qualquer dia sou uma mulher nova.

28 de julho de 2009

Psicanálise com vista para o mar

Essa sou eu, aqui dita nas tuas palavras, desnudada, sem aviso. Lês-me como a um livro, sem que eu tivesse percebido o quanto de mim havia já em ti. Essa sou eu, sem tirar nem pôr, preto sobre branco. Gargalhadas para pintar de outros tons o que não quero ouvir por palavras tuas. Essa sou eu. Inteira. Essa sou eu com dores de adolescente, com medos, como não quero que me vejas. Essa sou eu. Passado sem futuro.

18 de julho de 2009

anda

Vamos sair de mãos dadas, caminhar lado a lado e perder-nos entre os risos e as conversas inconsequentes das noites de verão. Vamos perder-nos nas ruas por entre copos de cerveja e a música que sai dos bares. Vamos andar de mãos dadas e trocar sorrisos cúmplices. Vamos subir e descer calçadas, por entre um mar de gente e deixar que os corpos fiquem muito juntos. Vamos gastar palavras que por hoje não dirão nada, são apenas conversa deitada fora. Vamos andar de braço dado, a tua mão na minha cintura, pelo meio da rua. Vamos beber mais um copo, vamos rir de nós, dos outros, da vida. Vamos dançar até ser dia. Vamos trocar beijos despudorados e juras de amor. Anda.

17 de julho de 2009



A ansiedade cresce na exacta proporção do silêncio e da ausência. Como se uma palavra pudesse ser a cura, como se a presença, ainda que apenas pressentida, pudesse ser bálsamo para a dor. A mais doce ilusão, quando sabe, sempre soube, que ali não está a solução, mas simplesmente o problema.

12 de junho de 2009

ressaca

Seguir em frente significa perceber que um provérbio japonês tatuado num tornozelo faz mais sentido do que aquilo que queria acreditar. Cais sete, levantas-te oito. Levanto-me, lambo as feridas e recomponho-me todas as vezes que forem precisas. Sempre o soube.

A ressaca de uma semana — já viste que parecem ter passado três meses, também sentes que o tempo se expande e condensa sem sentido quando nada sabe nada? —, parece hoje mais difícil de suportar, sei que um dia esta dor não será mais do que uma memória doce. É estranho que uma dor seja doce. Não. A dor só acontece porque tem por detrás uma história com sentido, intensa e vivida com um enorme prazer.

Seguir em frente significa perceber e aceitar a impossibilidade, mesmo insistindo que este não é um romance russo do século xix. Seguir em frente é procurar e encontrar novos hábitos, novas moradas, novos rumos, traçados na geografia da cidade que nunca foi nossa. Aos poucos tento perceber o quanto de mim ficou depois de tudo acabar. Transformo-me. Aprendo e aplico novos conceitos.

10 de junho de 2009

Sabia que regressar a casa tinha os seus riscos. Voltar ao ponto de partida, com a alma desassossegada, com o vazio a pesar no peito. Só não sabia que as lágrimas voltariam a cair em catadupa. Despudoradas.

8 de junho de 2009

[outra vez a] chuva

Leio Agualusa, que fala de chuva em clima tropical, leio Agualusa e penso no cheiro da terra molhada em dias de muito calor. Num segundo a imaginação transporta-me para uma casa imensa, um quarto com uma cama de lençóis brancos, uma tarde inteira para te amar, com a janela aberta sobre a cidade e o barulho da chuva a cair lá fora. [esperam-se dias de sol]

6 de junho de 2009

dos dias bons

Os dias de chuva não são sempre maus. Há dias de chuva e frio guardados na caixa das memórias felizes. Dias de vento com cigarros partilhados numa qualquer placa de aeroporto. Penso neles, agora, sentada numa nova sala de embarque, de olhos postos na pista, com a cabeça a mil à hora, a querer fugir para outras latitudes. Penso neles, agora, com a mochila carregada, com a cabeça e os olhos pesados, penso nos olhares, nos sorrisos cúmplices, penso na cidade de nome impronunciável, o cabelo e a cara molhados pela chuva fria. Penso em dias, ou noites, de calor com chuva, com o suor a escorrer pela pele como gotas de chuva. Dias bons. Dias sem aviso. Mesmo que dias de adeus.