31 de agosto de 2009

ao almoço [quase] roubei um poema

© Stewart Shining


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão ...Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo...e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas nunca mais fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
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Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário Sá Carneiro

30 de agosto de 2009

the end is near

volto a cair na tentação ao som de fiery furnaces, enquanto leio pessoa e suspiro por uma brisa. as janelas abertas e não corre nem uma aragem. não é um queixume, não é um lamento, é apenas a constatação do quanto gosto das noites de verão, de como gosto que se prolonguem madrugada dentro, com um livro e a música no limite para não acordar os vizinhos, enquanto acendo mais um cigarro, deixo que o fumo se misture com o cheiro de terra molhada que vem lá de fora. the end is near. é aproveitar o verão enquanto dura.

limpar a vista

Edward Norton fotografado por Satoshi Saïkusa

ou a pergunta que se impõe depois de ontem à noite: onde param os homens giros de lisboa?

29 de agosto de 2009

um certo grau de loucura

começo a notar uma certa propensão para falar sozinha, não conversas inteiras ou monólogos imensos e maçadores, antes frases curtas, ríspidas, imperativas, como quem disciplina uma criança pequena. talvez esteja a pôr ordem na casa. um certo grau de loucura não será, no entanto, de menosprezar.

27 de agosto de 2009

TPC

eu devia saber que reagir com o coração na boca e o sangue a ferver nas veias só podia dar disparate.

[agora vou ali arranjar uma sebenta para escrever isto umas cinquenta vezes]

26 de agosto de 2009

ainda [a]gosto

Atravessar a ponte a meio da tarde, ainda que em direcção contrária à praia, ver as esplanadas cheias de turistas e gente desocupada deixou-me com um ligeiro espírito hans castorp. amanhã talvez faça gazeta.

do trabalho

"É que em relação ao trabalho nutria o maior dos respeitos, não obstante sentir que o mesmo lhe provocava um leve cansaço."

A montanha mágica, Thomas Mann

25 de agosto de 2009

da procura

© Phil Poyter

Sejamos honestos. Dificilmente haverá actividade mais aborrecida que procurar uma casa. Bendita seja a tecnologia que nos poupa uma trabalheira desgraçada, sites à mão de semear, cheios de casas e casinhas, demasiadas casinhas, ali todas encadeadas e devidamente documentadas. Bem melhor do que andar de jornal na mão, a marcar visita atrás de visita, sobe escada, desce elevador, desilusão atrás de desilusão. O que as novas tecnologias não nos poupam é o disparate desta gente que pede mundos e fundos por casas mal engendradas, metros quadrados onde mal cabe uma cama, já para não falar num sofá, cozinhas a querer passar por kitchenettes enfiadas dentro de armários com duas portas, sim é verdade, havia uma para a mostra. Encontra-se de tudo em duas horas de pesquisa, salvam-se as gargalhadas, perante o ridículo e o desplante desta gente que põe à vista de todos casas onde não se percebe como vive gente, atulhadas de tudo, com móveis a cair, azulejos por todo o lado - como alguém ainda restaura uma casa e põe azulejos em todas as divisões?! - , de um mau gosto geral, com preços absolutamente exorbitantes: 140 mil euros por 40 metros quadrados? E o pior é que, para quem como eu tem dificuldade em decidir entre dois pares de sapatos, a decisão entre milhares de casas, algumas com um pormenor ou outro que não são maus de todo, será um pesadelo. Talvez juntando as janelas da sala da Ajuda, à casa-de-banho da Amoreiras, com a cozinha da Graça e o quarto de Alvalade, se conseguisse alguma coisa próxima do imaginado. Em duas horas de pesquisa guardaram-se duas com potencial. Haja tempo e paciência para marcar visitas.

doce

Com formigas a sair debaixo das teclas do portátil, sem que eu percebo como lá foram parar, hoje só posso escrever palavras doces.

23 de agosto de 2009

corpo

© Hedi Slimane

Corpo, lembra-te não só do quanto foste amado,
não só das camas onde te deitaste,
mas também daqueles desejos que para ti
brilhavam nos olhos abertamente,
e tremiam na voz - e algum
obstáculo casual os frustrou.
Agora que tudo está no passado,
quase parece como se também àqueles
desejos tivesses sido dado - como brilhavam,
lembra-te, nos olhos que para ti olhavam;
como tremiam na voz, para ti, lembra-te, corpo.

Os poemas, Konstandinos Kavafis

21 de agosto de 2009

ao almoço roubei um poema ii

© Miles Aldridge

De um de teus pátios ter olhado
as antigas estrelas,
do banco da sombra
ter olhado
essas luzes dispersas
que minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o odor do jasmim, da madressilva,
o silêncio do pássaro a dormir,
o arco do saguão, a humidade
- essas coisas talvez sejam o poema.

Jorge Luis Borges, Fervor de Buenos Aires

keep on fooling them

Ali estamos os dois a falar de viagens, Índia, Roma, Berlim, Nova Iorque, Praga, os destinos que cumprimos e os que nos faltam cumprir, passamos ao trabalho e às responsabilidades e às saudades do tempo de meninos. Ser grande é uma seca e não há outra maneira de pôr a questão. Voltamos atrás muito tempo e dizes que não mudaste desde os tempos da escola, que só o discurso se refinou, talvez tenhamos aprendido qualquer coisa nos bancos da faculdade, não mudamos, mas agora já não há o canto, nem a relva onde curávamos bebedeiras e fumávamos ganzas, como não existem as tascas no final da rua, agora há salas de reunião, gente engravatada e com um sério. Estamos nesta conversa e percebo que pela primeira vez encontro alguém que pensa o mesmo que eu, não sei porque me admiro, uma frase destas só poderia vir de um de nós. Somos uma fraude, cada um à sua maneira, rimos muito, recriamos a cara séria dos nossos interlocutores, de quem nos ouve como se de facto percebêssemos alguma coisa do que dizemos, e perguntamo-nos durante quanto tempo conseguiremos continuar a enganá-los. Mas não somos só nós, talvez sejamos apenas os únicos a ter consciência, os outros limitam-se a ser uma fraude sem o saberem, continuando inchados na sua existência oca, rimos da forma como quem nos rodeia se vê a si próprio, como olha o mundo, as suas vidinhas tristes, como se acham importantes e agem como se tudo o que fazem fosse essencial para a salvação da humanidade, como se fossem encontrar a cura para a sida ou guardassem o segredo para paz do mundo, como não percebem que tudo é tão inútil e fútil e vão e frívolo. Talvez por isso não percebam que nós somos uma fraude. É aproveitar enquanto dura, qualquer dia somos desmascarados a meio de uma reunião, de uma conversa, de uma apresentação. Aí levantamo-nos, agradecemos e saímos a dar gargalhadas. Até lá… keep on fooling them

20 de agosto de 2009

encontrei-me num filme do Woody Allen

Agora não sei se chore se ria. Por enquanto tem ganho o riso.

19 de agosto de 2009

home

[fotograma Constant Gardener]

Tim: Go home... and live.
Justin: But I don't have a home, Tim.Tessa was my home.

18 de agosto de 2009

o universo está a tentar dizer-me alguma coisa

© Satoshi Saikusa

há uma borboleta gigante à entrada de casa, ou à saída, dependendo do sentido que se leva, e esse é o meu, o da saída, mas a borboleta está lá indecisa entre o entrar e o sair. estendo-lhe o dedo, ela sobe sem cerimónias, passeia-se pelo meu braço, caminha até quase ao ombro, estendo-lhe o dedo da mão direita e ela volta a subir novamente sem cerimónias, ficamos naquele jogo muito tempo tic-tac-tic-tac-tic-tac. A borboleta por vezes não se agarra com força suficiente e vem por aí abaixo, pelo abismo até ao chão, fica a espernear, asas encostadas na pedra, e novamente a levanto. tento não pensar qual será o seu destino, já deu para perceber que por qualquer razão não terá muito jeito, ou então perdeu-o, deixou-o cair aí algures, para essa coisa de voar. e é a voar que de um momento para o outro, passado um bocado, me começam a entrar bolas de sabão pela janela do carro, redondas, ocas, perfeitas, bolas de sabão no meio de trânsito, no pára-arranca-pára-arranca-pára-arranca destes dias de agosto que sempre custam menos porque está um calor dos diabos e uma pessoa por mais que tente nunca fica verdadeiramente mal disposta em dias de verão, ou pelo menos quer acreditar que sim, que não fica verdadeiramente mal disposta e infeliz. divago, mas não é nisso que penso quando as bolas de sabão entram pela janela do carro, porque estou com um sorriso enorme e não é todos os dias que há bolas de sabão no meio da cidade, no meio do trânsito, e do outro lado da estrada lá está um miúdo, não tem mais de quatro anos, a soprar bolas de sabão e gargalhadas que se sobrepõem ao barulho do pára-arranca-pára-arranca-pára-arranca. uma borboleta e bolas de sabão e ainda não bebi sequer o segundo café. o universo está a tentar dizer-me alguma coisa.