30 de abril de 2009

[novas] memórias iii

[Claudio Capri]

Em versão ir ao tapete.

28 de abril de 2009

a [nossa] história

A chuva cai miudinha, constante, molha os cabelos, os casacos, molha os sorrisos de uma história feliz. Chega-te a mim, entrelaça o teu braço no meu, posso sempre dizer que tenho medo de escorregar na calçada, deixa-me segredar-te ao ouvido uma história feliz. Porque esta é uma história feliz, por muito que insistam em estragá-la, corrompe-la, maltrata-la. É uma história de encontros improváveis, de cumplicidades que acontecem sem aviso, de conversas e gargalhadas à frente de um copo de vinho, uma história que mete a rua do amor e cigarros partilhados, em que um saxofonista toca só para eles [tenho a certeza que naquela noite tocou só para eles] numa praça com nome de capital europeia, uma sala monumental de onde fogem sem saberem ainda que fogem deles próprios, uma história de madrugadas adocicadas por sorrisos, com direito a pequeno-almoço a muitos metros de altitude, de despedidas difíceis e de saudade, aquele sentimento ainda indefinido, a fazer riscos na parede, a matar os minutos até à próxima vez. E do rio que os viu sorrir, não a eles, mas aos olhos por saberem por fim que a espera não tinha sido em vão, reencontrados numa madrugada que se fez quase dia.

Sentada num banco de jardim, com a cidade e o miradouro de outras memórias em frente, sentada num banco de jardim a ouvir mesmo ali ao lado aquela que dizem é a língua do amor, chorou aquelas que jurou serem as últimas lágrimas. Fosse ela tão decidida a cumprir as suas promessas como cumpre as dos outros e a tristeza teria ficado ali enterrada, ‘six feet under’, sem possibilidade de exumação.

27 de abril de 2009

do medo

“Humm… pois… tudo está nas mãos do homem, e o homem deixa que tudo lhe fuja à frente do nariz, so por cobardia… é um axioma… Não era curioso saber do que têm mais medo as pessoas? De um passo novo, de uma palavra nova própria, é esse o maior medo delas… Aliás, palro de mais. Tagarelo, por isso não faço nada. Ou então: tagarelo porque não faço nada.”

Crime e Castigo, Fiódor Dostoiévski

verdades [demasiado] óbvias

"As saudades não vencem o medo."

O Planalto e a Estepe, Pepetela

20 de abril de 2009

[novas] memórias ii

[Henri Cartier-Bresson]

17 de abril de 2009

[novas] memórias

[Robert Doisneau]

16 de abril de 2009

As palavras foram ditas, repetidas, estão exaustas de serem usadas e maltratadas. O silêncio impõe-se como meio de sobrevivência, a mudez como única forma de manter o equilíbrio precário, como forma de salvar o que nunca foi. O silêncio e uma sauna, para purgar as tristezas, para que as lágrimas saiam em forma de gotas de água, que coladas à pele resvalam para o chão.

13 de abril de 2009

Quis deixar-te na areia da praia, entre o sabor a sal e o cheiro a creme, quis fazer de ti uma história de encantar, com um final feliz, quis cumprir a promessa recitada em silêncio, feita oração, de não permitir que se perdesse a inocência. Vieste-me colado à pele, aos sentidos, sem que o toque chegue a ser mais do que uma promessa, e eu quis partir de novo, para o sítio onde os sonhos, por mais frios que sejam, têm cor e realização material.

8 de abril de 2009

comboios ii

[Bruno Barbey/Magnum Photos]

6 de abril de 2009

as palavras dos outros

"Sabia o que ela queria dizer e, nesse momento, senti como se tivesse sacudido o pó e a areia de dez anos secos; então e sempre, mesmo que ela me falasse por meias palavras, palavras simples, frases tolas em calão contemporâneo, com movimentos dificilmente perceptíveis dos olhos e dos lábios ou das mãos, por muito pouco expressivo que fosse o seu pensamento, por muito rápido e longínquo do assunto em causa, por muito profundo, tal como acontecia muitas vezes, indo directo da superfície para as profundezas, eu sabia; mesmo nesse dia, em que ainda me encontrava no crepúsculo do amor, eu sabia o que ela queria dizer."

Reviver o passado em Brideshead, Evelyn Waugh

20 de março de 2009

comboios

[Henri Cartier-Bresson, 1958]

19 de março de 2009

não gosto de poesia

um só olhar
pode ser uma voz não dita.
para acumular dores
o mais das vezes
bastou um desamor.
sei: a solidão
ecoa de modo muito silencioso.
sei: muita silenciosidade
pode reciprocar
verdadeiros corpos num amor.
um só silêncio
pode ser nossa voz não dita
ainda nunca dita
para ecoar um silêncio
bastou gritarmo-nos para cá dentro
num gritar aprofundo.
já um silenciar um eco
é missão para uma toda vida:
exige repensação da própria existência.

Há Prendisagens com o Xão, Ondjaki

18 de março de 2009

Feist ou a banda sonora para um doce acordar

Não interessa a duração do tempo, apenas a intensidade com que se vive. Constroem-se memórias doces que ficam guardadas em pequenas caixas com letras a negro onde se lê ‘handle with care’. Não interessam as horas que se dormem, apenas a certeza de deitar a cabeça na almofada de consciência tranquila. Não interessa quão pesado será o dia a semana, quando começa lentamente, com sol firme, subindo e descendo as colinas de Lisboa, olhando como quem vê pela primeira vez.

sorrisos*

Why don't you stay
I feel lucky today
Give me a chance
And I'll show you the way

I know someday you'll be mine
You will know too
It's a matter of time

Oh! Let me hold your hand
Please, let your heart beat again

You know I daydream of you
I'm so in love
It's too good to be true

You make me smile
As I look in your eyes
My heart is full
Like my very first time

It's like I was born again
I just can't say
How happy I am

Oh! Let me hold your hand
Please, let your heart beat again

[*com o patrocínio do Rodrigo Leão]