18 de agosto de 2009

de ti para [de] mim para ti

© Matthew Woodson

A vida não é de abrolhos.
É de abr'olhos.

A vida não é de escolhos.
É de escolhas.

Por que me olhas e m'olhas?
Por que me forras a alma
com o relento de um sentimento?

Serei eu a tua escolha?

Abre os olhos e olha,
que eu já me escolhi em ti!

Alexandre O'Neill, Entre a Cortina e a Vidraça, 1972

17 de agosto de 2009

ao almoço roubei um poema

© Andreas Larsson

O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar,
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!

O amor é o amor - e depois?!

Alexandre O'Neill, Abandono Vigiado

arrepios

Sentados com vista para o rio trocamos banalidades, rodeamos o assunto com pezinhos de lá, falamos do tempo, da praia, de trabalho, das férias que ainda faltam, evitamos a vida, fugimos ao tema, numa espécie de dança que se não fosse atabalhoada, pelos sorrisos envergonhados, os olhos a fugir, as mãos que não sabem onde param, seria um tango, como aquele ali em baixo. Descemos e subimos colinas na noite quente, ensinas-me as constelações, caminhamos lado a lado, em passo lento, em trocas de risos e roçagares de mãos, e de repente a tua mão nas minhas costas, como quem me ampara o caminho, e eu a suster a respiração, a pensar que talvez assim o tempo pare, talvez os ponteiros não girem nos relógios e os sinos das igrejas da cidade emudeçam, talvez o arrepio se prolongue além do infinito.

16 de agosto de 2009

hoje foi dia de praia


[© Tiago Molina]

15 de agosto de 2009

homicídio involuntário

entrar na sala em lingerie, sem se lembrar que deixou a janela aberta, e dar de caras com o vizinho de 70 anos

silêncio

© Ruven Afanador

alguém tem o comando para baixar o som do mundo? dói-me a cabeça.

ilusões


14 de agosto de 2009

let's party

© Patrick Demarchelier

imensamente agradecida à entidade superior que inventou as sextas-feiras e os dois dias que se seguem.

"Your life is defined by its opportunities... even the ones you miss"

Goodnight Benjamin.


a mania de ficar na última fila da sala de cinema tem as suas vantagens quando se chora a alma e para além dela, com as lágrimas a saltarem disparadas, a caírem em cima do vestido e o nariz a pingar ininterruptamente, só penso como esta gente me deve odiar, uma gaja a fungar pode ser pior que o barulho das pipocas e o sorver da coca-cola.

Eu a fungar e o ar a faltar no momento em que o brad enche o ecrã em cima de uma harley, e se não é uma parece, mas também não é o mais importante na cena, e a falta de ar nada tem a ver com o nariz entupido e as fundagelas constantes. esvaziei a alma e o saco lacrimal.

Goodnight Daisy.

12 de agosto de 2009

do amor ii


Juno: I think I'm in love with you.
Bleeker: You mean as friends?
Juno: No... I mean for real. 'Cause you're, like, the coolest person I've ever met, and you don't even have to try, you know...
Bleeker: I try really hard, actually.

da irritação

morri em ti, é certo que não é a primeira vez, mas desta vez parece-me ser a sério e isso é coisa para me deixar sinceramente irritada, ou então estou apenas desconsolada porque a dor de cabeça não me deixa há dois dias, o que dá cabo de qualquer pessoa. não fosse a tal dor de cabeça e hoje estava capaz de deitar abaixo uma garrafa de tinto, sendo assim não me parece boa ideia. como nem dormir consigo, às voltas que estou há mais de uma hora, as luzes apagadas e os estores corridos, vou aconchegar-me no sofá, procurar um filme de-domingo-à-tarde e chorar a alma de uma vez por todas.

vale sempre a pena

"[...] Por isso te digo que nenhum amor é vão. Nenhum. Nem os que acabam à bofetada, ou em silêncios ressentidos porque se disse tudo e não se foi a lugar nenhum e realmente as palavras não chegam - às vezes a cena que também me acontece, é a de que as palavras vêm às golfadas e por isso o melhor é ficar calada para não perder a compostura e não fazer feio. [...]"

Mónica Marques, um blog da diáspora blasée


11 de agosto de 2009

eu

eu reduzida a dados reduzidos a valores transformados em arte. esta sou eu em versão Piet Mondrian.

[via segunda língua]

da música

Nem sempre os valores seguros nos transportam gentilmente para mundos sem dor. Oiço Feist por achar a música inócua no meu universo sentimental, preciso de músicas sem história, sem personalidade, sem peso ou mácula. Até que começa o aperto no peito, aumenta a ansiedade, a tristeza, e volto a ouvir, quero convencer-me que estou errada, que esta música não tem história, não tem peso ou mácula, volto a ouvir e a sentir o coração apertado, uma pedra no peito. E então lembro-me.

hoje não

Pega no telefone e liga para o escritório, diz-lhes que fiquei afónica, que tenho gripe A, que me cansei da vida, diz-lhe que hoje não vou e a seguir, se não for pedir muito, volta a baixar os estores, mas deixa-os entreabertos, deixa filtrar o ar e o sol, daqui a nada bate-me aqui, há-de tocar-me no cabelo, na cara e então eu acordo. Hoje não vou, vou levantar-me tarde, tomar o pequeno-almoço enquanto o cohen me fala da sua secret life que é também a minha, vou preguiçar no sofá, vou-me dedicar ao jardim, meter um chapéu de abas largas, sentar-me no chão e arrancar as ervas daninhas, qualquer dia entram pela porta adentro, como quem limpa a alma, vou molhar os pés com a água da mangueira, vou ser feliz sem pensar em nada. E quando as flores ficarem compostas, como em dia de festa, quando tiver as unhas pretas e as mãos arranhadas, volto aqui, tiro a roupa e enfio-me no banho. Se ainda cá estiveres podes pôr a água a correr, não muito quente, deixar Bach a tocar e traz-me o livro que ando a ler, aquele da capa castanha, ficou no chão ao lado da cama, fico na banheira até a pele se enrugar, como se numa hora passassem todos os anos da terra. [hoje não] Pega no telefone e liga para o escritório…