24 de setembro de 2013

set the date! set the date!


Alexander Shahabalov

há uma charlotte histérica na minha cabeça a gritar 'set the date! set the date'* . na verdade não é uma charlotte, apenas uma voz na minha cabeça que me exige que me decida, de uma vez por todas, a marcar uma data. os comprimidos estão comprados e andam alegremente a passear-se por Lisboa. levo-os comigo para a junta, a tomar um café junto ao rio e com sorte até a praia. mudam de uma mala para a outra, da mesma maneira que mudo a carteira, o carregador do iphone, a caneta laranja, o creme das mãos, o telemóvel, tudo aquilo que preciso diariamente e a que dou uso. excepto aos comprimidos. sabia que fumar um cigarro era o princípio do fim, ainda disse 'eu não vou voltar a fumar', mas nem eu acreditei nisso. foi há três meses. e ao fim de uma semana já andava a dizer isto não dura muito. e a verdade é que não quero que dure. sinto todos os malefícios do tabaco na proporção inversa em que não senti os benefícios de largar o cigarro. a respiração ofegante, a tosse, o hálito, o cheiro a tabaco que me exaspera mesmo que não fume dentro de casa. e por isso comprei os comprimidos. por isso e porque vem ai o inverno e este corpinho não aguenta nem 10 segundos na varanda mais ventosa de lisboa, nem que seja pelo prazer de fumar um cigarro. porque, convenhamos, fumar, mais do que um vício, é um prazer. mesmo com todas as contraindicações descritas, é um prazer. foi por isso que durante dois anos e três meses não houve um único dia, um único!, em que não me apetecesse pegar num cigarro. só precisava de um pretexto e o que encontrei, ou que me encontrou, era tão bom como qualquer outro. agora, que o pretexto se desfez, não há razão para persistir no erro prazer. é por isso que tenho uma charlotte histérica na minha cabeça a gritar 'set the date! set the date!'

[*há dias, a meio de um zapping, apanhei a charlotte, numa das milésimas repetições do sex and the city, a gritar histérica para que o namorado marcasse a data do casamento. como qualquer homem sensato, voltou-lhe as costas e foi à vida dele]

23 de setembro de 2013

5,7

'Eu não podia ligar a pedir ajuda. Não era vergonha. Só não queria deixar de acreditar que eu, sozinho, já não era suficiente, que o meu corpo já não me chegava para fazer frente às adversidades.'

'Índice médio de felicidade', de David Machado, é cair dentro de um poço e ficar lá a esbracejar à procura de ar, numa angústia permanente, transformada em certeza, de que nunca vamos encontrar o caminho de volta à superfície. IMF exige muitas pausas, exige ter a certeza de que ainda temos chão debaixo dos pés, exige distanciamento de quando em vez para acalmar os batimentos cardíacos, os medos, as inquietações. Até que, já perto do fim, paramos, num exercício próximo do masoquismo porque queremos adiar o final, paramos porque queremos ter a certeza que chegamos à última página com algum resquício de sanidade mental que nos permita continuar a viver depois daquilo. IMF não é ficção, é a realidade em estado puro.

21 de setembro de 2013

only summer can save me

                 [andré kertész]

15 de setembro de 2013

trocar os lençóis

Não voltarei a esse corpo; e não sei
se aqueles que o vestiram antes e depois
de mim souberam nele o verdadeiro calor
e lhe conheceram os perigos, os labirintos,
as pequenas feridas escondidas. Não voltarei
provavelmente a sentir a respiração
palpitante desse corpo, desse lugar onde as ondas
rebentavam sempre crespas junto do peito, do meu peito
também, às vezes.

Uma noite outro corpo virá lembrar essa maresia,
o cheiro do alecrim bruscamente arrancado à falésia.
E eu ficarei de vigília para ter a certeza de quem me
recolheu,
porque os cheiros tornam os lugares parecidos, confundíveis.

Quando a manhã me deixar de novo sozinha no meu quarto
trocarei os lençóis da cama por outros, mais limpos.

Maria do Rosário Pedreira

12 de setembro de 2013

wishful thinking


dá para manter este tempo até, sei lá, dezembro? era só uma [boa] ideia.

preparar o inverno


está tudo aqui. olivia pope, barney, carrie, ted, mr. president, brody... só faltam as noites de chuva, uma manta, a embalagem de gelado, alternada com chá de gengibre e chocolate. 

11 de setembro de 2013

paradoxo

sair de uma aula de ioga com uma vontade imensa de comer feijoada.

areia e mais areia

há duas noites que queimo as pestanas à volta de anúncios de emprego no estrangeiro. sem ter desistido do desígnio de me pôr a andar daqui para fora, concluo, ao fim da primeira noite, que devia ter seguido agronomia, medicina, gestão, administração pública, línguas ou mesmo condução agressiva. tudo menos ser administrativa numa junta. e nem vale a pena acreditar que me posso reinventar, porque sei que posso, aqui pedem experiência, muita experiência, anos a fazer a mesma coisa. à segunda percebo que devia ter nascido num país de terceiro mundo. por muito que portugal se pareça cada vez mais com um ainda não desceu o suficiente no ranking que nos permita concorrer ao sem fim de bolsas destinadas a promover competências daqueles que, imagine-se, estão ainda pior que nós. no meio não está a virtude. está apenas um deserto.

do choque

 [Nicky Loh/Getty Images]

um em cada quatro homens algures na ásia e pacífico já violaram uma mulher. um em cada dez diz ter violado mulheres com quem não tinham qualquer tipo de relacionamento. metade das vítimas era adolescente. 73% das violações aconteceram porque os homens consideram ter o direito a fazê-lo. 59% porque alguém precisava de se divertir. e de todos apenas 23% acabou na prisão. é uma realidade que não merece grandes comentários. apenas repulsa, a mais pura repulsa.

10 de setembro de 2013

da dor

'A pouco e pouco, a sua fé ia esmorecendo. É difícil crer numa coisa quando estamos sós e não podemos falar disso com ninguém. Foi justamente nesses dias que Drago se apercebeu de como os homens, por muito que se estimem, permanecem sempre distantes; de que se alguém sofre, o sofrimento é unicamente seu, ninguém pode chamar a si uma pequena parte dele; de que se alguém sofre, lá por isso os outros não sentem nenhuma dor, mesmo que o amor que os une seja grande; e isso é a causa da solidão da vida.'

O Deserto dos Tártaros, Dino Buzzati

9 de setembro de 2013

isto nunca será um blog de moda

a escolha de stilettos de 11 centímetros pela manhã será sempre proporcional à distância entre o único lugar vago para estacionar e a porta da junta. axioma igualmente válido ao final do dia para o caminho a percorrer entre o carro e o ginásio, mesmo que nas últimas três visitas, sempre de sapatos rasos, tenha parado à porta.

8 de setembro de 2013

idiossincrasias

aquele momento do ano em que me esgueiro para o quarto dos miúdos, abro os livros acabados de comprar e inspiro o cheiro das memórias de infância.

7 de setembro de 2013

das palavras

Há uma palavra perdida em qualquer sítio: 
talvez na casa ao lado, talvez no patamar
por onde se passou a caminho da rua. O cão 
de manhã, farejou por ali - como se 
a procurasse; e alguém a terá pisado, sem 
saber que as palavras também podem cair 
ao chão. "Amor", ou "nada", ou apenas 
"amanhã": uma palavra igual a uma destas 
sem mais nem menos sentido, como se 
uma palavra não custasse, por vezes, 
a dizer; ou como se as palavras se 
 pudessem deitar assim, da boca para o chão. 

[Nuno Júdice]

do cansaço


e ao sétimo dia seguido o despertador volta a tocar à hora marcada, demasiado cedo para um sétimo dia. acordo no lado errado da cama, estico o braço, desligo o despertador. espreguiço-me e penso que é só mais uma manhã, que não falta quase nada para o fim-de-semana, que só tenho que escolher a 'farda' para mais um dia, que depois posso vestir os calções, calçar os chinelos, apanhar a primeira t-shirt que estiver na gaveta. o corpo move-se como se não estivesse de dever horas à cama, a água a cair-me sobre a cabeça e os pensamentos já a mil na conversa que me espera, o filme de ontem à noite, o caminho até ao trabalho, se apanho a auto-estrada ou se tenho tempo para me deixar perder nas curvas da marginal, o sonho transformado em pesadelo, as perguntas a fazer, o livro que lerei deitada na areia mal despache o trabalho, que não me posso esquecer do ipad, que no regresso preciso de passar no supermercado. as mãos que espalham o creme no corpo, que pegam o pincel da base, que agarram o secador, tudo em modo automático mas decidido. uma mulher com um objectivo, pelo sétimo dia seguido. e ao sétimo dia e meio, quando finalmente posso deixar a armadura e vestir o meu melhor sorriso de não fazer nada, o carro segue como que por vontade própria a caminho de casa. o corpo recusa-se a reagir e as ordens que o meu cérebro lhe transmite são ostensivamente ignoradas. e aqui fico, esticada no sofá, colada ao sofá, incapaz de outra coisa que não seja respirar.

[a única coisa em comum entre a foto e o post é obviamente o sofá]

1 de setembro de 2013

do medo

e sem aviso percebes que continuas a olhar, mas deixaste de ver. o homem de rosto marcado a rugas, o saco de plástico verde onde deve guardar os medicamentos enrolado no pulso, é apenas um homem e o saco apenas um saco. olhas, mas já não vês as vidas, as dores, a idade. a mulher sentada, com a cabeça suportada pela mão, de olheiras profundas, enegrecidas por noites mal dormidas, nada te diz, não desperta a imaginação, é apenas uma mulher. mais uma. a sala, a cheirar a vidas gastas, a cheirar à espera, é apenas uma sala. olhas e não vês a tinta a escamar das paredes, a infiltração na esquina que dá para a porta de saída, os letreiros que indicam o serviço de radiologia, análises, ortopedia. olhas, mas não vês porque deixaste de sair de ti, encafuada em ti própria, a olhar para o umbigo, a olhar para o lado, tão perto que consegues tocar a única realidade que vês com a ponta dos dedos sem sequer ter que esticar o braço. para onde foram todos os outros, todas as vidas com que te cruzavas e imaginavas mais cheias ou mais vazias que a tua? quando deixaram de entrar no teu raio de visão, nos teus ouvidos, as conversas do autocarro ou da mesa ao lado? tu tão concentrada em perceberes-te sem entenderes nada, enredada em pensamentos que um dia alguém chamou de ruminantes? e o que é isto de te fechares em ti, mesmo quando ouves o que te dizem, mesmo que respondas, dês mimo, cuides, mesmo que te rias ou chegues mesmo a lançar gargalhadas. é o medo, o medo da vida que te parece tão cheia e da qual não queres perder pitada. é o medo do vazio que se instala quando param os pensamentos e por isso não paras de pensar, cada vez mais enredada, cada vez mais fechada, cada vez com mais medo.